"Quero ir embora", eu disse. "Então vá", respondeu minha mãe. "Você não lhes deve nada."
Me encarei no espelho — vestido vermelho, olhos marejados, boca trêmula. Então minha mãe disse: "Mas você também não precisa correr". Tirei o cardigã da bolsa. "Vista se quiser", disse ela. "Só certifique-se de que seja uma escolha, não uma armadura."
Segurei-a por um instante, depois dobrei-a e deixei-a no balcão. "Vou voltar para dentro." "Por quê?" "Porque Madison disse meu nome como se eu não estivesse na sala." A voz da minha mãe se tornou mais calorosa. "Então vá e ocupe seu lugar lá dentro."
As luzes diminuíram quando voltei. A apresentação de slides começou com casamentos, bebês, cachorros, promoções e fotos de férias. Então, meu slide apareceu: EVA. Uma foto minha em Chicago preencheu a tela. Abaixo, estavam as palavras: Diretora de Marketing. Mentora da Comunidade. Chicago. As pessoas aplaudiram. Brielle se inclinou para a frente. "Quem é essa?" Ashley olhou fixamente. "Não é a mulher que estava sentada conosco?"
Então a música parou. Um vídeo granulado de um corredor apareceu — armários azuis, chão sujo, luzes fluorescentes fortes. Eu, com dezesseis anos, apareci na tela, agarrada aos meus livros. A voz da Madison adolescente ecoou pelo salão de baile. “Cuidado, pessoal. A foto do antes está tentando andar.” Alguém riu no vídeo. Meus livros caíram no chão.
A garota na tela caiu de joelhos tão rápido que parecia estar se desculpando por existir. O salão ficou em silêncio. Madison deu uma risada. Ninguém riu com ela. A organizadora correu em direção ao laptop. "Me desculpem. Eu não percebi—" "Deixem aí", eu disse. Todos se viraram. Caminhei até a tela. "Quero que todos a olhem por um segundo."
“Ela passou quatro anos tentando desaparecer”, eu disse. “Mudou o jeito de andar, o jeito de rir e o jeito de responder às perguntas na aula. Aprendeu quais corredores evitar e quais garotas podiam arruinar o dia dela com um olhar.” O rosto de Madison empalideceu. Virei-me para ela. “E dez anos depois, você ainda achava que humilhá-la era divertido.”
Madison se levantou. "Espere." Apontei para a tela. "Aquela garota era eu." Um murmúrio baixo percorreu a sala. Ashley cobriu a boca com a mão. Brielle olhou para o chão. Madison forçou um sorriso. "Eva, vamos lá. Éramos crianças." "Eu também era criança, Madison." O sorriso dela se desfez. "Eu não sabia que você ainda estava chateada." "Você não sabia porque nunca perguntou."
“Foi só uma lembrança engraçada”, disse ela. “Você se lembrou da risada”, respondi. “Eu me lembrei de ter ido para casa chorando.” Alguém lá no fundo disse: “Isso não teve graça”. Outra voz acrescentou: “Nunca teve”. Madison olhou em volta, mas desta vez, a sala não se moveu em sua direção.
“Não”, eu disse. “Nem todo mundo estava com uma câmera apontada para si enquanto tentava não chorar.” A organizadora se aproximou e pediu desculpas. Assenti com a cabeça e me virei para a sala. “Não preciso que ninguém seja expulso. Não preciso de um pedido de desculpas perfeito. Só preciso que as pessoas parem de chamar a crueldade de nostalgia.”
Os olhos de Madison brilharam, mas não consegui distinguir se era vergonha ou constrangimento. "Desculpe", disse ela baixinho. "Não pensei em como você se sentiu." "Esse é o problema", respondi. "Você não pensou em mim como alguém que sente alguma coisa." Então peguei minha bolsa e saí.
No banheiro, meu cardigã ainda estava dobrado sobre a bancada, onde eu o havia deixado. Por um segundo, o abracei contra o peito. Depois, o guardei na bolsa. Lá fora, no terraço, o ar frio tocou meu rosto e, finalmente, chorei. Mas não era aquele choro de antes, aquele em que eu tentava ficar em silêncio para que ninguém ouvisse. Era diferente — mais silencioso e puro.
A porta se abriu atrás de mim. "Eva?" Ashley estava parada ali, com os braços cruzados. Enxuguei a bochecha. "Se você está aqui para defender a Madison, não faça isso." "Não estou." Ela deu um passo à frente, depois parou, como se soubesse que não tinha o direito de se aproximar. "Eu deveria ter dito alguma coisa naquela época." "Sim", eu disse. "Você deveria ter dito."
