Poucos meses depois, sua saúde deteriorou-se rapidamente.
Primeiro, ele parou de usar as escadas. Depois, parou de discutir com os médicos. Logo, as enfermeiras começaram a falar comigo em tom de voz cauteloso.
Seus filhos começaram a vir com mais frequência, não para ajudar, mas para contar pinturas, relógios e arquivos.
Certa tarde, cheguei ao hospital com um pijama limpo e o livro de palavras cruzadas do Arthur. Deborah bloqueava a porta, com Alfred e Norman atrás dela.
“Somente para a família”, disse ela.
Levantei a sacola. "Ele pediu isso."
“Eu vou entregá-los a ele.”
“Eu sou a esposa dele.”
Um sorriso irônico surgiu em seus lábios. "No papel."
A enfermeira na recepção olhou para cima.
Senti o velho instinto de pedir desculpas e recuar.
Em vez disso, aproximei-me.
“Sai da frente, Débora.”
Alfredo riu. "Você se esqueceu do seu papel."
“Não”, eu disse. “Você se esqueceu do meu.”
A voz de Arthur veio de dentro do quarto. "Deixem-na entrar."
Débora virou-se rapidamente. "Pai, você precisa descansar."
“Então pare de fazer minha esposa brigar para entrar neste quarto.”
Débora deu um passo para o lado, sussurrando: "Isso acaba logo."
Passei por ela.
Arthur parecia menor a cada dia, mas seus olhos ainda se aguçavam no instante em que encontravam os meus.
“Você não deveria brigar com eles”, eu disse, colocando a sacola no chão.
“Eles me esgotam”, disse ele. “Você me traz alegria, querida.”
Eu ri, e depois chorei antes que pudesse me conter.
Naquela noite, ele pediu que todos se retirassem, exceto eu.
Foi então que ele me entregou a caixa.
Dois dias depois, ele havia desaparecido.
No funeral, usei um vestido preto simples que havia comprado em promoção. Após a cerimônia, as pessoas se reuniram na casa.
Débora atravessou a sala com um copo na mão.
“Espero que você tenha guardado o recibo daquele vestido.”
O cômodo ficou em silêncio, aos poucos.
“Este é o funeral do seu pai”, eu disse. “Tenha um pouco de respeito.”
“Exatamente”, ela respondeu. “E depois de hoje, a apresentação termina.”
Norman olhou fixamente para sua bebida. Alfred não fez nada para impedi-la.
Durante dois anos, permiti que me diminuíssem porque acreditava que dignidade significava silêncio.
Arthur não estava mais lá para segurar minha mão.
Então eu me contive.
“Você ficou com o dinheiro dele, Deborah”, eu disse. “Tente não perder também a dignidade dele.”
Alguém perto da porta inspirou profundamente. Até Alfred baixou o olhar.
Antes que Deborah pudesse responder, o advogado de Arthur, John, se colocou entre nós.
“Arthur pediu que a leitura acontecesse logo após o funeral”, disse ele. “No meu escritório. Uma hora. Para todos vocês.”
Débora sorriu como se estivesse esperando por aquele exato momento.
No escritório do advogado, sentei-me na ponta da mesa com a caixa de papelão ainda fechada no colo.
O advogado começou pela propriedade principal.
A mansão, as participações corporativas, as contas de investimento, os carros e as obras de arte foram todos para os filhos de Arthur.
“O patrimônio principal não deixa nenhum ativo monetário para Camille”, disse John.
Débora recostou-se. "Nada?"
“Sem dinheiro”, confirmou ele.
Ela olhou para mim com um ar de satisfação radiante. "Você desperdiçou dois anos."
Respirei fundo lentamente. Eu tinha dito a mim mesma que não me importava.
Na maioria das vezes, não.
Mas existe um tipo particular de humilhação em ser acusado de ganância enquanto se está sentado de mãos vazias.
Eu me levantei. "Se terminamos, eu vou embora."
“Ainda não”, disse o advogado.
Débora franziu a testa. "Mas o espólio já está resolvido. Não estrague tudo, John."
“A partilha da herança principal está concluída”, respondeu ele. “Arthur também deixou instruções relativas a uma propriedade separada.”
Alfred inclinou-se para a frente. "Que propriedade?"
O advogado abriu outro envelope.
Os olhos de Débora se estreitaram. "O que é isso?"
“Esta é uma instrução separada”, disse ele. “Este bem nunca fez parte do patrimônio de Arthur. Pertencia a Sophia.”
O sorriso de Débora desapareceu. "Nossa mãe? Então é nossa!"
“A casa de campo à beira do lago era propriedade exclusiva dela. Arthur tinha direito ao usufruto vitalício, mas Sophia deixou instruções por escrito sobre o que deveria acontecer após seu falecimento.”
Norman franziu a testa. "Então chegamos a nós, John."
"Não."
Alfred endireitou a postura. "Explique isso."
