Li a carta primeiro porque Nora me pediu.
Era a essência do Mark. Ele disse que a amava. Disse que a cegueira não a havia diminuído. Me chamou de a pessoa mais corajosa que ele conhecia, o que foi grosseiro, porque ele nem estava lá para ver o impacto que aquela frase teve em mim.
Então Nora disse: "Toque a flauta doce."
Então eu fiz.
Ouvir a voz de Mark depois de sete anos foi como levar um soco no peito.
Ele parecia normal. Aquecido. Seco. Um pouco cansado.
“Nora”, disse ele, “se você está ouvindo isso, é porque algo deu muito errado.”
Nora deu uma risadinha horrível que se transformou em choro no meio dela.
Ele disse que a amava. Disse que ela tinha mais coragem do que a maioria dos adultos que ele já conhecera. Brincou dizendo que ela costumava bater com um dedo no piano e chamar aquilo de jazz.
Então, seu tom mudou.
“A pessoa de quem tenho medo está mais perto do que eu gostaria de acreditar.”
Eu disse, imediatamente: "O chefe dele".
Jonah disse: "Essa também foi a minha primeira suposição."
Antes de permitir que Jonah ajudasse, obriguei-o a me entregar cópias de sua carteira de habilitação, todas as anotações que ainda tinha e tudo o que Mark lhe havia dado, exceto o pacote. Eu não ia me envolver em outra situação de confiança incompleta por causa de um homem com uma mochila e cara de culpado.
Fomos até o antigo prédio da empresa, agora com outro nome. Encontramos ex-funcionários. Consultamos registros públicos. Duas clínicas que Mark havia sinalizado receberam cobranças por equipamentos que nunca receberam.
Nora se recusou a ficar longe disso.
Eu disse a ela: "Isso é feio."
Ela disse: "É meu pai."
Isso pôs fim à discussão.
Ela ouviu a gravação de Mark repetidas vezes com fones de ouvido. Então ela disse: "Há um sino de igreja atrás dele."
Eu mal conseguia ouvir algo além de estática.
Ela disse: “Não. É a igreja de Santa Ana. Quatro sinos graves, uma pausa, depois um agudo. Passávamos por lá toda semana quando eu era pequena, a caminho da aula de piano.”
Isso nos deu uma localização.
Jonah vasculhou depósitos num raio de um quilômetro e meio daquela igreja. No segundo depósito, o número da chave de Mark coincidia com o de um cofre no escritório dos fundos.
Dentro da caixa havia cópias dos registros desaparecidos.
E na última página, um nome havia sido circulado duas vezes com a letra de Mark.
Lídia.
Meu melhor amigo.
Ela levava Nora às consultas quando eu não conseguia folga do trabalho. Ela se sentava à minha mesa da cozinha nos aniversários do acidente e chorava comigo. Antes do acidente, ela também fazia contabilidade em meio período para a empresa de Mark porque precisava de dinheiro extra depois do divórcio.
