Antes de dormir, sussurrei: "Este é o preço da liberdade."
Naquele momento, a liberdade parecia exatamente como rejeição.
Naquele verão, o futuro de Clare tomou conta da casa. Caixas chegaram, os depósitos da matrícula foram pagos e minha mãe comprou roupa de cama e malas. Eu fazia horas extras em uma livraria e me inscrevia para bolsas de estudo entre um cliente e outro. Quando Clare queria alguma coisa, virava um projeto em família. Quando eu precisava de alguma coisa, virava uma lição de responsabilidade.
Na semana em que a faculdade começou, meus pais voaram com Clare para Redwood Heights para a orientação. Eu arrumei duas malas velhas e peguei um ônibus sozinha para Cascade State. Meu pai me deu duzentos dólares em um envelope com um bilhete: Para emergências. Seja esperta.
Eu fiquei com o dinheiro.
Rasguei o bilhete.
Na Cascade, aluguei um quarto barato numa casa antiga perto do campus. O chão era inclinado, o aquecedor fazia um barulho alto e a cozinha sempre tinha um leve cheiro de queimado. Mas o aluguel era barato, e barato significava possível.
Meu despertador tocava às 4h30 todas as manhãs. Às 5h, eu já estava abrindo um café no campus. Trabalhava antes das aulas, estudava entre as palestras e limpava os alojamentos estudantis nos fins de semana. Alguns dias eu me sentia forte. Na maioria dos dias, me sentia como uma máquina movida a cafeína e pânico.
Eu nunca contei aos meus pais o quão difícil foi. Eles teriam dito que era a prova de que eu havia escolhido um caminho difícil, e não que eles me haviam forçado a segui-lo.
O Dia de Ação de Graças confirmou tudo. O campus esvaziou, mas eu fiquei porque a passagem de ônibus para casa estava muito cara. Liguei mesmo assim. Minha mãe atendeu com risadas ao fundo.
"Posso falar com o papai?", perguntei.
“Ele está cortando o peru”, disse ela após uma pausa. “Ele liga mais tarde.”
